Reportagem publicada no Jornal "Valor Econômico" de 06 de janeiro de 2003, no caderno "Eu e minha carreira", por Alice de Azevedo.

 

 

Segunda-feira, 06 de janeiro de 2003

   

"IMPLANTAR UMA INOVAÇÃO, NO GERAL,
NÃO É UMA TAREFA FÁCIL PARA OS EXECUTIVOS.
O RESULTADO PARA A CARREIRA, NO ENTANTO, É SEMPRE POSITIVO"

COMO ENCONTRAR ESPAÇO E CORAGEM PARA PROPOR SOLUÇÕES INOVADORAS

Desde que trocou a diretoria de novos produtos de uma multinacional do setor de eletroeletrônicos para tocar o próprio negócio, há 20 anos, Vanderlei José Florenzano está à frente de uma consultoria voltada ao estudo de mercado e planejamento estratégico. A empresa, com sede em São Paulo, leva o seu nome e traz no portfólio clientes como a Bosch, Coca-Cola e Philips. Como gestor, o executivo enfrentou cenários bastante negativos: da instabilidade da moeda à recessão. Nenhuma das crises, porém, o tirou de cena. " Atribuo os bons resultados ao lema que adotei para minha vida " , diz ele. " Sou movido a desafios e preciso me superar " . Na prática, ele aplica o conceito literal de inovação. O termo vem do latim (innovare) e significa introduzir novidades em leis e costumes. Produzir algo novo, encontrar novo processo, renovar.

Foi justamente o que fez no início de novembro. " Percebi que os índices de potencial de consumo que apresento aos clientes poderiam ser melhorados " , diz. " O projeto não era obsoleto, mas apresentava possibilidades de mudanças " . E, de fato, Florenzano não descansou enquanto não construiu uma nova fórmula - solução essa que não recairia no bolso dos consumidores. " Acrescentei duas variáveis que melhoram as estimativas de quem o consulta " , revela o executivo, sem esquecer que a concorrência é fator decisivo na hora da busca pelo ineditismo. " Se a cultura da companhia aposta em novas propostas tanto melhor " .

Justamente motivado pelo espírito de mudança, o diretor de marketing de uma empresa do setor de cosmético percebeu que as consumidoras de um determinado sabonete, lançado no mercado em 1999, exigiam melhorias no que diz respeito à hidratação. Além disso, elas deixavam claro que a marca deveria estar associada a algum tipo de projeto social. " Não hesitei em partir para campo e descobrir o que elas realmente desejavam " , conta ele. "Graças às ferramentas que temos disponíveis, como página na internet, e-mail, SAC, trabalhamos o relançamento do produto baseado na demanda do consumidor " . Segundo ele, essa percepção só foi possível devido ao desenvolvimento tecnológico e à aproximação cliente-empresa. " Há dez anos o cenário era outro e perceber necessidades levava tempo ", diz.

Mas nem todos encontram panorama favorável para aplicar novos conceitos. Quando Rubens Pessanha, presidente da Associação de Mestres e Ex-Alunos do Instituto de Administração Coppead (AMEA) decidiu criar o site da AMEA e tornar a ferramenta um banco de currículos foi alvo de críticas. O produto, afinal, existia no mercado e era comum para associações do gênero. " Mas era novidade para os ex-alunos do Coppead " , diz. Desde que foi lançado com essa proposta, a página conta com o cadastro de 400 ex-alunos (no total de 1300), sem falar das 50 empresas-parceiras, que têm acesso aos currículos, como a Petrobras e a PSA Peugeot Citröen. " Apresentamos pelo menos 18 vagas por mês para os usuários, o que representa crescimento de 50% se comparado ao período anterior à criação do site " .

Por enfrentar barreiras semelhantes, o mecanismo adotado por Leonardo Figueiredo, gerente de desenvolvimento de negócios de uma empresa do setor de produtos químicos, para mostrar a necessidade de renovação em sua área é simples. " Uso números " , diz. " É um argumento que não dá margem para questionamento " . Exatamente dessa forma ele agiu para mostrar ao diretor a importância de nacionalizar um equipamento. " Em princípio ele não enxergava a idéia como algo relevante. Depois que comprovei tal necessidade, a fabricação da máquina no Brasil passou a integrar a lista de prioridades do setor " .

A arte de inovar ganha também sustentação acadêmica. Para o pesquisador norte-americano Michael Schrage, associado ao Media Lab do Massachusetts Intitute of Technology (MIT), observar uma aula ministrada por um especialista em interpretação, por exemplo, pode ser mais estimulante do que ver o produto final. Schrage integra o time dos executivos que apreciam quem joga com uma possibilidade ou tenta aplicar novas idéias para alcançar um resultado melhor. Tamanha crença o levou a escrever Jogando para Valer: Como as Empresas Utilizam Simulações para Inovar (Editora Campus). Dividido em três grandes temas (Atuando na Realidade, Comportamento do Modelo e Simulando a Inovação), o autor cita até Galileu para mostrar ao leitor que " uma pessoa não pode ensinar algo a algum homem, uma pessoa pode somente aprender consigo mesma "